
Dadá Figueiredo morre aos 61 anos.
Dadá Figueiredo morreu aos 61 anos, no sábado (24), deixando uma marca profunda na história do surfe brasileiro. O carioca Dávio Correia de Figueiredo estava internado com pneumonia. Entretanto, não houve divulgação oficial de um laudo detalhando a causa da morte.
Reconhecido como um dos surfistas mais revolucionários dos anos 1980, Dadá ganhou notoriedade pelas manobras inovadoras, pelo comportamento contestador e por sua ligação com o movimento punk. Além disso, inspirou diferentes gerações com uma abordagem radical que desafiava os padrões das competições.
Por sua vez, a Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (Feserj) lamentou a morte do ex-atleta. Em comunicado, a entidade destacou sua autenticidade, a radicalidade nas ondas e a contribuição para transformar a cultura do esporte.

Dadá Figueiredo marcou a história do surfe brasileiro com manobras inovadoras, estilo agressivo e uma radicalidade à frente de seu tempo.
Um revolucionário à frente do seu tempo
Nascido em 4 de março de 1965, no Rio de Janeiro, Dadá Figueiredo cresceu surfando nas ondas cariocas. Desde cedo, demonstrou criatividade e uma maneira própria de interpretar as ondas.
Enquanto grande parte dos competidores seguia linhas tradicionais, Dadá incorporava movimentos inspirados no skate. Dessa forma, seus laybacks, batidas verticais, rasgadas e mudanças bruscas de direção surpreendiam o público.
Entretanto, a inovação nem sempre encontrava reconhecimento entre os juízes. Isso porque muitas de suas manobras eram consideradas avançadas demais para os critérios de julgamento daquele período.
Apesar disso, conquistou resultados importantes. Em 1989, foi campeão carioca e venceu o Sea Club Final Heat, em Saquarema. Posteriormente, em 1992, recebeu o reconhecimento de surfista mais hardcore do Brasil. No ano seguinte, foi eleito o melhor freesurfer do país pelos leitores da revista Fluir.
Mais do que os troféus, porém, sua principal contribuição foi ajudar a abrir caminho para o surfe progressivo. Assim, tornou-se uma referência para atletas que buscavam novas maneiras de executar manobras.

Criador da Necrose Social, Dadá levou sua personalidade irreverente e a influência do punk rock para dentro e fora d’água.
Necrose Social: a rebeldia também fora d’água
A personalidade contestadora de Dadá ultrapassou os limites das praias e dos campeonatos. Afinal, sua maneira de viver também refletia o desejo de romper padrões.
Ligado ao punk rock, o surfista tocou baixo na banda Os Normais e adotou uma postura crítica em relação às convenções do esporte.
Além disso, criou a marca Anti-Fashion em parceria com o shaper Eduardo Crivella. Posteriormente, lançou a Necrose Social, nome que se tornou um símbolo de sua identidade irreverente.
A Necrose Social esteve associada à fabricação de pranchas e ao universo da moda alternativa. Portanto, representava muito mais do que uma iniciativa comercial: traduzia sua maneira independente de viver o surfe.
Em março de 1994, o jornalista Alceu Toledo Júnior publicou na Folha de S.Paulo uma reportagem sobre a decisão de Dadá de priorizar o freesurfe.
Na ocasião, o surfista declarou:
Estava cansado de ter de competir em lugares com ondas ruins.
Com um novo contrato de patrocínio, Dadá pretendia viajar em busca de ondas, fabricar suas pranchas Necrose Social e dedicar mais tempo à música. Dessa maneira, buscava conciliar o surfe com outros interesses pessoais.

Ícone do surfe nacional nos anos 1980 e 1990, Dadá Figueiredo influenciou gerações com sua criatividade e seu estilo inconfundível.
Uma final histórica contra Picuruta Salazar
Entre os episódios mais emblemáticos de sua carreira está a final contra Picuruta Salazar, realizada em maio de 1988, em Pitangueiras, no Guarujá.
A disputa terminou com vitória de Picuruta por 3 votos a 2. Entretanto, o resultado provocou discussões entre surfistas, jornalistas e torcedores.
Anos depois, Alceu Toledo Júnior, que acompanhou a bateria diretamente da areia, revisitou aquele confronto em uma reportagem publicada no Waves, em março de 2023.
Amigo dos dois competidores, Alceu relatou que continuava dividido sobre o julgamento, mesmo décadas depois. Para ele, o empate teria sido uma decisão justa diante das apresentações dos finalistas.
Dessa forma, aquela bateria simbolizou uma fase de transformação do surfe nacional. Naquele período, estilos diferentes disputavam não apenas títulos, mas também o reconhecimento de novas possibilidades técnicas.
Dadá Figueiredo também fez história na Bahia
A ligação de Dadá com o público baiano rendeu episódios memoráveis. Inclusive, sua passagem por Salvador deixou lembranças que continuam vivas entre jornalistas e torcedores.
No fim dos anos 1980, o surfista participou do Fico Surf Festival, realizado na Praia de Stella Maris, em Salvador.
Na edição de 1989, disputada entre 10 e 15 de outubro, Dadá chegou às quartas de final e terminou na quinta colocação. Na ocasião, Pedro Müller conquistou o título daquela etapa do Circuito Brasileiro.
Entretanto, o resultado esportivo não foi o único destaque de sua passagem pela Bahia.
O jornalista Alceu Toledo Júnior, que também nos deixou em 2026, costumava contar ao jornalista Ader Oliveira, da AOS Mídia, uma história envolvendo Dadá e a torcida do Fico Surf Festival.
Segundo a lembrança de Alceu, durante uma das edições do campeonato, o carioca saiu da praia carregado pelo público, que gritava:
“Dadá é nosso rei!”
Embora ainda não tenha sido possível estabelecer com segurança em qual edição ocorreu o episódio, a história demonstra a popularidade do surfista entre os torcedores.
Além disso, revela como Dadá conseguia conquistar o público independentemente dos resultados das competições.
Uma vida de desafios, superação e recomeços
Fora d’água, Dadá também enfrentou períodos difíceis. Sua trajetória, portanto, não foi marcada apenas pelas conquistas esportivas.
Ao longo da vida, enfrentou problemas com álcool e drogas, além de episódios de violência que interromperam momentos importantes da carreira.
Posteriormente, com o apoio da família e da religião, conseguiu reconstruir sua vida. Tornou-se pastor evangélico e passou a compartilhar publicamente sua experiência de recuperação.
Além disso, dedicou-se à fabricação de pranchas e à formação de novos surfistas, desenvolvendo atividades na Barra da Tijuca.
Sua história inspirou o documentário Radical: A controversa saga de Dadá Figueiredo, dirigido por Raphael Erichsen.
Produzido em 2014, o filme chegou à Netflix em 2017 e reuniu imagens históricas e depoimentos de pessoas que acompanharam sua trajetória. Entre elas, estavam Alceu Toledo Júnior, Ricardo Bocão e outros personagens do surfe brasileiro.
O legado continua com os filhos
Dadá Figueiredo deixa três filhos, entre eles Dávio Figueiredo, que também construiu sua trajetória no surfe.
Em 2008, Dávio conquistou o título carioca de sua categoria, aos 12 anos. Na ocasião, uma reportagem do ge registrou o orgulho do pai, que acompanhou a premiação e abraçou o filho no pódio.
Além disso, a relação entre os dois foi documentada em sessões de freesurfe. Dessa maneira, pai e filho compartilharam uma história familiar profundamente ligada ao oceano.
Imagens recentes mostram Dadá ainda radical nas ondas
Mesmo décadas depois de revolucionar o surfe brasileiro, Dadá continuava impressionando com suas manobras.
Nos últimos anos, o cinegrafista Eugênio Schuck Sarmento, amigo do surfista e responsável pelo canal Dia Livre, produziu diferentes registros de suas sessões no litoral carioca.
Em abril de 2025, por exemplo, Eugênio filmou Dadá testando uma prancha No Control nas ondas da Barra da Tijuca. As imagens mostram o veterano mantendo seu estilo agressivo e a mesma disposição para atacar as ondas.
Como homenagem, a AOS Mídia reuniu alguns desses registros em um vídeo especial, com imagens de Eugênio Sarmento e edição própria.
Assista à homenagem da AOS Mídia a Dadá Figueiredo
Imagens: Eugênio Sarmento / Dia Livre. Edição: AOS Mídia.
Velório e cremação de Dadá Figueiredo
A última despedida de Dadá Figueiredo está marcada para terça-feira, 27 de outubro de 2026, no Rio de Janeiro.
De acordo com o comunicado de despedida divulgado com os detalhes da cerimônia, o velório terá início às 10h, na capela D do Cemitério e Crematório da Penitência, no bairro do Caju.
Em seguida, a cremação está prevista para 12h, no mesmo complexo funerário.
Local: Cemitério e Crematório da Penitência
Endereço: Rua Monsenhor Manuel Gomes, 307, Caju, Rio de Janeiro (RJ)
Data: terça-feira, 27 de outubro
Velório: 10h, capela D
Cremação: 12h
Assim, a despedida encerra a trajetória de um dos personagens mais originais da história do surfe brasileiro.
Dadá Figueiredo não foi apenas um competidor de destaque. Acima de tudo, foi um pioneiro que questionou padrões, levou o punk para dentro do universo do surfe e ajudou a transformar a maneira de executar manobras.
Por isso, sua ousadia, criatividade e autenticidade permanecerão como referência para diferentes gerações.
Valeu, Dadá!