Em lágrimas e aplausos, Davi Lucca entra para o RankBrasil como o mais jovem a surfar a pororoca. Foto: Divulgação
Foi com o coração acelerado, olhos cheios d’água e uma vibração que arrepiou toda a margem do rio que o pequeno Davi Lucca, de apenas 10 anos, entrou para o RankBrasil como o mais jovem surfista a surfar a pororoca — o fenômeno natural que acontece quando o oceano invade o leito do rio Capim, em São Domingos do Capim (PA).
A conquista aconteceu durante o Festival da Pororoca, evento tradicional que movimenta o município paraense todos os anos. Em 2025, o festival foi realizado entre os dias 29 de março e 6 de abril, com o campeonato de surfe acontecendo de 30 de março a 1º de abril. Davi participou da expedição entre os dias 28 e 31 de março, período em que viveu uma experiência transformadora ao lado do pai.
Logo na chegada, a família foi recebida por representantes da Abraspo (Associação Brasileira de Surf na Pororoca), entidade responsável por organizar e fomentar a prática do surfe no fenômeno, com foco em segurança, técnica e valorização cultural.
“Chegamos lá e já tinha uma galera esperando a gente. A Abraspo deu toda a atenção, os equipamentos estavam em dia, e fizeram de tudo pra deixar Davi tranquilo. Foi muito rico pra gente vivenciar tudo aquilo”, contou Litinho, pai de Davi.
Davi Lucca em ação na pororoca de São Domingos do Capim (PA). Foto: Arquivo pessoal Davi
No primeiro dia, a pororoca não apareceu no ponto previsto, e a equipe teve que partir para outra ilha para continuar a busca. A tensão aumentava, mas também crescia a expectativa.
“A gente foi pra outra ilha e todo mundo na caça da pororoca. Quando a galera começou a ver a zoada daquela onda vindo… meu irmão… foi alucinante. A galera gritava: ‘lá vem ela! lá vem ela!’”
Foi então que o momento chegou. Davi remou com firmeza, subiu na prancha e surfou a pororoca por mais de três minutos, em meio aos aplausos e vibração da comunidade local.
“Eu tava cabreiro dele perder a onda, era uma chance só. Mas ele conseguiu. Subiu, surfou. A galera vibrava com ele. Foi algo muito forte, pra gente e pra todo mundo que tava ali.”
À noite, Davi participou do tradicional ritual Auêra-Auára, cerimônia de origem indígena realizada antes do surfe, para pedir permissão à natureza.
“Foi muito bonito. Um ritual de pedir licença ao rio. Aquilo conectou a gente com o universo. O Davi se sentiu super abraçado por tudo isso. Foi transformador pra ele como pessoa.”
Davi, que mora na Praia do Forte (BA), é apoiado pelo Instituto Ivete Sangalo. Foto: Divulgação
“Você vai brilhar surfando na pororoca. Estou muito feliz e orgulhosa de você. Um campeão está escrevendo sua história, e eu estou daqui aplaudindo de pé.”
Segundo Litinho, o mais marcante não foi só a onda, mas o acolhimento das pessoas:
“A comunidade recebeu a gente super bem. De garotinhos a senhoras, todo mundo vibrava por Davi. Isso foi muito transformador.”
Com sorriso no rosto e olhos ainda emocionados, Davi expressou o que sentia com simplicidade de criança:
“Pai, eu não sabia que dava pra sentir tanta coisa ao mesmo tempo.”
Mais do que um recorde, Davi Lucca surfou um momento que ficará para sempre na memória da sua família — e agora, também, na história do surfe brasileiro.
No podcast Fala Papah, Jadson André revela episódios de racismo vividos em aeroportos e fala sobre preconceito, julgamento pela aparência e experiências marcantes na carreira. Foto: WSL / Thiago Diz
O surfista Jadson André, um dos nomes da geração que colocou o Brasil na elite do surf mundial, falou abertamente sobre episódios de racismo que já enfrentou ao longo da carreira. O relato foi feito durante participação no podcast Fala Papah e trouxe à tona situações vividas principalmente em aeroportos, durante viagens para competições internacionais.
Acostumado a viajar pelo mundo competindo no mais alto nível do surf profissional, Jadson contou que já foi questionado ao entrar em filas de prioridade em check-ins de companhias aéreas. Segundo ele, em diversas ocasiões ouviu que estaria “na fila errada”, julgamento feito com base apenas na aparência e na forma como estava vestido.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu no Aeroporto de Guarulhos. O surfista relatou que estava em uma fila para resolver um problema de bagagem quando foi ofendido por uma mulher que se recusou a aceitar a orientação que ele deu sobre a ausência de prioridade naquele atendimento. A situação escalou a ponto de Jadson procurar a Polícia Federal, que abordou a mulher e ofereceu a possibilidade de registrar ocorrência.
Além desse caso, o atleta mencionou outras situações constrangedoras vividas em aeroportos. Em uma delas, após ser tratado de maneira inadequada por um funcionário, acabou recebendo um upgrade de classe como tentativa de reparação. Jadson destacou que passou a se vestir de forma mais formal durante viagens justamente para evitar novos julgamentos precipitados.
Durante a conversa, o surfista também refletiu sobre os limites entre denúncia legítima e exageros nas redes sociais. Ele reconheceu que o racismo e a xenofobia são realidades presentes na sociedade, mas ponderou que é importante manter equilíbrio ao tratar do tema.
O episódio reforça um debate que vai além do esporte. A trajetória de Jadson André mostra que o preconceito pode atingir qualquer pessoa, independentemente da carreira ou do reconhecimento profissional.
O episódio completo está disponível no canal do podcast Fala Papah:
Lapo Coutinho fala sobre o câncer, dor e decisões difíceis em entrevista ao Fala Papah. Foto: Reprodução
Lapo Coutinho abriu o coração em um dos trechos mais impactantes já exibidos no canal Fala Papah. Na conversa, o lendário baiano falou de forma direta e sincera sobre o câncer, os desafios do tratamento e as decisões difíceis que precisou tomar ao longo da jornada.
O momento é marcado por reflexões profundas sobre dor, qualidade de vida, família e espiritualidade. Durante o episódio, Lapo compartilha como estava encarando a evolução da doença no período da gravação e revela quais eram suas prioridades naquele momento delicado.
Entre os pontos mais fortes da conversa, ele destaca que sua principal missão era não sentir dor. A frase resume o estado emocional e físico que vivia naquele instante. Ao longo do trecho, também aborda o impacto do diagnóstico na família, os medos naturais e o esforço para manter serenidade diante da incerteza.
A entrevista não tem caráter médico e não pretende orientar decisões clínicas. Trata-se do relato pessoal de Lapo Coutinho sobre sua própria experiência. É um registro honesto de um momento específico de sua trajetória.
Após a gravação do episódio, Lapo optou por iniciar tratamento com quimioterapia diante da evolução do quadro. A atualização reforça que decisões relacionadas ao câncer são complexas e podem mudar conforme o acompanhamento médico e o avanço da doença.
O corte publicado no canal Fala Papah destaca a dimensão humana da história. Mais do que discutir procedimentos, o vídeo apresenta uma reflexão sobre coragem, fé e enfrentamento.
O trecho completo está disponível no YouTube do Fala Papah e integra um dos episódios mais assistidos do canal, que tem se consolidado como espaço para conversas profundas dentro do universo do surfe e além dele.
Assista ao vídeo e acompanhe outras entrevistas no canal:
Ex integrante da elite mundial, Fábio Silva relembra no Fala Papah por que abandonou o WCT em 1997 e fala sobre saúde, família e sua origem no Titanzinho. Foto: Reprodução.
O novo episódio do podcast Fala Papah, já disponível no YouTube, traz um dos relatos mais emblemáticos e humanos da história do surfe brasileiro. Cria da comunidade do Titanzinho, em Fortaleza, o cearense Fábio Silva revisita sua trajetória no esporte, marcada por talento, ascensão precoce, decisões difíceis e desafios que extrapolaram as competições.
Nos anos 1990, Fábio foi apontado como uma das grandes promessas do surfe nacional. Campeão brasileiro nas categorias de base, vice campeão brasileiro profissional em 1996 e vencedor de uma etapa do WQS na França em 1997, ele conquistou vaga na elite mundial naquele mesmo ano. Em sua temporada de estreia no WCT, figurava entre os 44 melhores surfistas do planeta e ocupava a 38ª colocação após cinco etapas disputadas.
Foi nesse contexto que Fábio surpreendeu o surfe brasileiro ao abandonar o circuito mundial em julho de 1997. À época, o surfista explicou que o desgaste das viagens constantes, a distância da família, o nascimento da filha, a dificuldade com o idioma inglês e o desejo de retomar os estudos pesaram na decisão. Ele renegociou contratos e optou por seguir competindo nos circuitos nacionais.
No episódio do Fala Papah, gravado em dezembro de 2025 nas ruas do Titanzinho, em frente ao mar que moldou sua história, Fábio revisita essa escolha com maturidade. Ele reflete sobre como aquela decisão, tomada em um contexto diferente, hoje pode ser compreendida à luz de temas que ganharam força no esporte, como saúde mental, bem estar e identidade.
No podcast, Fábio revela um detalhe pouco conhecido daquele momento. Ele chegou a embarcar para a etapa de Jeffreys Bay, na África do Sul, uma das mais tradicionais do circuito mundial. A decisão de abandonar a elite, porém, foi tomada ainda durante a viagem.
Sozinho, sem dominar o inglês, pressionado pelo ambiente do circuito e emocionalmente fragilizado, Fábio desembarcou no aeroporto de Johannesburgo e optou por retornar ao Brasil antes mesmo de seguir para a praia. Ele não chegou a competir nem a entrar no mar. A escolha foi feita ainda no avião, na ida, em um momento silencioso e decisivo da sua carreira.
Um episódio que ajuda a entender o peso psicológico enfrentado por atletas em uma época em que temas como saúde mental, acolhimento e adaptação cultural praticamente não existiam no esporte de alto rendimento.
Além da carreira esportiva, Fábio fala abertamente sobre os obstáculos enfrentados fora da água. De origem humilde, criado em uma comunidade periférica, ele precisou lidar com dificuldades financeiras, limitações estruturais e preconceito por ser nordestino, mesmo após alcançar reconhecimento internacional.
O episódio também aborda momentos delicados de saúde. Fábio relembra a trombose venosa sofrida em 2015, inicialmente confundida com um AVC, que causou paralisia temporária do lado esquerdo do corpo. Após tratamento e fisioterapia intensa, conseguiu se recuperar sem sequelas. Cerca de dez anos depois, em 2025, voltou a enfrentar um novo quadro de trombose, desta vez nas pernas e nos pés, após uma longa viagem de ônibus do Sergipe ao Ceará, o que motivou uma grande mobilização de apoio no meio do surfe.
Mesmo diante de tantas dificuldades, Fábio segue ligado ao surfe e à sua comunidade, mantendo uma escolinha no Titanzinho sempre que as condições físicas permitem. Humilde, simples e extremamente querido, ele representa uma geração e uma história que ajudam a entender o surfe brasileiro para além de títulos e rankings.