
A bicampeã mundial de surf, Tyler Wright, denuncia a intimidação e a violência que muitas mulheres enfrentam nas ondas. Foto: WSL / Tony Heff
O surf sempre foi um espaço de liberdade e conexão com a natureza, mas, para muitas mulheres, os desafios do surf feminino vão além da performance nas ondas. A recente declaração da bicampeã mundial Tyler Wright ao site australiano ABC e os relatos da longboarder brasileira Chloé Calmon reforçam uma realidade preocupante: o desrespeito e a intimidação que muitas surfistas enfrentam ao dividir o mar com os homens.
O relato de Tyler Wright e a pesquisa sobre o ambiente do surf
Tyler Wright revelou ao ABC que já foi atacada fisicamente e verbalmente no mar. “Já fui atacada por homens na água, já fui atingida na cabeça, já fui gritada, berrada”, contou a surfista, alertando que esses ambientes podem ser não apenas passivamente perigosos, mas ativamente intimidadores.
A fala de Tyler está em sintonia com um estudo da University of Technology Sydney (UTS), conduzido pelas doutoras Ece Kaya e Leila Khanjaninejad, que mostrou que muitas mulheres sentem-se aterrorizadas ao surfar, pois precisam provar constantemente seu valor dentro d’água. A pesquisa destacou ainda a influência do localismo, onde surfistas locais impõem domínio sobre determinados picos, tornando a experiência ainda mais desafiadora para as mulheres.
O estudo também revelou desigualdade nas oportunidades competitivas e a necessidade de mais mulheres em posições de liderança para promover mudanças estruturais no surfe, desde o nível de base até o profissional.
Samantha Oakes, surfista australiana que costuma surfar com sua filha de 13 anos, Natalia, compartilhou experiências similares. Além de ser cortada repetidamente em ondas, em uma das situações mais graves, ela saiu do mar com um braço quebrado após um incidente. “Há dias em que a onda está perfeita, mas sei que alguns surfistas na água tornarão a experiência horrível”, disse Oakes.
Diante desse cenário, especialistas sugerem que picos de surf implementem códigos de conduta, enquanto organizações têm investido em iniciativas como clubes femininos e cursos gratuitos para mulheres em arbitragem e treinamento.

Chloé Calmon e os desafios do surf feminino: a longboarder compartilhou sua experiência de desrespeito no surfe e reforçou a importância de se posicionar contra a intimidação na água. Foto: WSL / Pierucki
Chloé Calmon: o desrespeito no surf brasileiro
No Brasil, a longboarder Chloé Calmon expôs episódios recentes que ilustram bem esse problema. Em suas redes sociais, ela compartilhou um caso ocorrido na Praia da Macumba, no Rio de Janeiro, onde um surfista desrespeitou sua prioridade em uma onda e a derrubou de forma intencional. Leia a íntegra do desabafo ao final desta notícia.
Ao confrontá-lo, em vez de reconhecer o erro, o homem a ridicularizou e ameaçou repetir a atitude. “Ele riu da minha cara e disse: ‘Vão ver de novo’. Depois, sentou ao meu lado no outside, tentando me intimidar para que eu não pegasse mais ondas”, relatou a surfista.
Situações como essa têm sido frequentes, e Chloé admitiu que, por muito tempo, preferiu se calar para evitar confrontos. No entanto, ela percebeu que esse silêncio apenas aumentava sua frustração. Agora, ela decidiu se posicionar e incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo. “O surfe é respeito acima de tudo. Já aguentei muito calada, mas não vou mais me calar”, declarou.
Segurança e apoio coletivo no surf feminino
Muitas surfistas têm encontrado apoio e segurança ao se unirem na água. Segundo a doutora Ece Kaya, uma das autoras do estudo da UTS, mulheres que participam de clubes de surfe frequentemente surfam juntas para criar um ambiente mais seguro. “Quando se sentem intimidadas por homens na água, elas se reúnem e formam um espaço de proteção”, explicou.
Essa estratégia é adotada por muitas surfistas ao redor do mundo, incluindo a australiana Samantha Oakes, que evita surfar sozinha, especialmente quando está com sua filha. “Se eu não estivesse na água com ela, minha filha não estaria surfando”, afirmou.

Mulheres unidas contra desafios no surf feminino: a solidariedade entre elas tem sido uma forma de garantir mais segurança e respeito no mar. Foto: @daniel_oliveirafotoss / Nay Surf Club
Avanços e desafios na igualdade dentro do surf feminino
Nos últimos anos, algumas mudanças importantes aconteceram. A World Surf League (WSL) implementou a equiparação da premiação entre homens e mulheres, além de criar eventos exclusivamente femininos. O governo australiano investiu um milhão de dólares na criação de 50 novos clubes femininos de surfe, além de oferecer cursos gratuitos para treinadoras, juízas e outras funções relacionadas ao esporte.
Apesar desses avanços, ainda há muito a ser feito. Dr. Kaya ressalta que, além das premiações, é necessário garantir igualdade nas oportunidades de patrocínio, desenvolvimento de carreira e participação feminina em todas as esferas do surfe.
A cultura do respeito no surf
O respeito às regras de prioridade nas ondas e a boa convivência no lineup são fundamentais para um ambiente mais harmonioso no surfe. A resistência das mulheres em continuar surfando e exigindo respeito é uma forma de transformar essa realidade. Como bem disse Tyler Wright: “O oceano é para todos, e precisamos mudar o comportamento de alguns para garantir o respeito a todos na água”.
Mulheres como Chloé Calmon e Tyler Wright estão quebrando o silêncio e trazendo à tona discussões fundamentais para um surfe mais inclusivo. Falar sobre esse tema e denunciar casos de desrespeito são passos essenciais para que o ambiente dentro d’água seja, de fato, um espaço de liberdade para todos.

Chloé admitiu que, por muito tempo, preferiu se calar para evitar confrontos. Foto: Divulgação WSL
Leia abaixo o relato completo de Chloé Calmon
“Eu estava surfando na Praia da Macumba, onde surfo há 20 anos. Peguei uma esquerda da série, já estava posicionada no outside há um tempo esperando por ela. Quando cheguei no inside, um surfista começou a remar para entrar na minha frente e me rabiar. Gritei para chamar a atenção dele, caso não tivesse me visto na onda. Ele continuou remando, olhou para mim e disse: ‘Eu vou atrás’. Ele esperou eu passar por ele para então dropar atrás de mim. No momento do drop, ele posicionou a prancha na minha linha e me derrubou, me tirando da onda que já vinha surfando com prioridade desde o outside.
Já perdi a conta de quantas vezes isso aconteceu recentemente. Sempre com homens. Até então, nunca confrontei os responsáveis, preferindo evitar estresse e conflito. Mas isso estava apenas me deixando mais frustrada. Quando aconteceu no domingo, decidi falar com o surfista e expor que aquilo foi uma grande falta de respeito.
Quando ele voltou para o outside, fui até ele e disse: ‘Cara, você foi muito covarde na última onda. Eu já vinha na prioridade desde o outside, e você me rabia e me tira da onda. Se quer pegar essa onda da série, sente lá fora comigo e dispute de igual para igual. Você tem o dobro do meu tamanho e quer me intimidar para me tirar da onda? Isso é falta de respeito!’. Ele começou a rir, revirou os olhos e me menosprezou. Então finalizei: ‘A praia inteira viu o que você fez’. Foi quando ele olhou para mim e respondeu: ‘E vão ver de novo’. Ele sentou ao meu lado no outside para me intimidar, tentando me impedir de pegar mais ondas.
Fiquei pensando em como normalizaram essa falta de respeito no surfe. Em que momento isso passou a ser aceitável? Vejo isso acontecendo diariamente com outras meninas no mar. Mas dessa vez, para mim, foi uma vitória, porque foi a primeira vez que me posicionei. Decidi que não vou mais engolir isso, porque está errado. O surfe que aprendi com meu pai é sobre respeito à natureza e ao próximo, independentemente do gênero, idade ou nível de experiência.
Não vou parar de surfar onde quero, nem deixar de me posicionar nas ondas. Sei que algumas meninas não conseguem se expressar, mas quero que essa realidade mude. Não vou deixar esse tipo de situação estragar minhas sessões no mar. No dia em que isso aconteceu, o mar estava lindo, o céu azul, altas ondas. Tem que ser muito infeliz para entrar na água e querer arrumar confusão por uma onda. Mando luz para ele e boas ondas para todos. Recado dado.”