Brasileiros Miguel Pupo, Yago Dora e Italo Ferreira são eliminados nas quartas de final do El Salvador Pro. Foto: Reprodução / AOS Mídia
A sexta-feira, 11 de abril, foi marcada por eliminações importantes para os brasileiros no El Salvador Pro 2025, etapa do Championship Tour da WSL. Em um dia de grandes expectativas, o Brasil viu todos os seus representantes darem adeus às disputas.
Alejo Muniz se despede em bateria polêmica
Um dos momentos mais comentados do dia foi a eliminação de Alejo Muniz nas oitavas de final. O brasileiro empatou com o norte-americano Cole Houshmand em 14.33 pontos, mas acabou eliminado pelo critério de desempate: a maior nota individual da bateria, que foi 8.50 a favor do adversário. Alejo precisava de 7.34 para virar nos instantes finais e recebeu 7.33. O resultado gerou questionamentos nas redes sociais e levantou debates sobre os critérios de julgamento. Vale lembrar que Alejo havia vencido Barron Mamiya por apenas um décimo de diferença no round anterior. Três dos cinco juízes deram a virada ao brasileiro contra Houshmand, mas a matemática ficou a favor do norte-americano. Nas etapas da WSL, a maior e a menor nota são descartadas automaticamente.
Alejo Muniz empata com Cole Houshmand em bateria polêmica e perde no critério de desempate. Foto: WSL / Aaron Hughes
Italo avança nas oitavas, mas cai nas quartas
Italo Ferreira, que chegou ao evento como líder do ranking, venceu Ramzi Boukhiam nas oitavas com 14.26 pontos (notas 7.33 e 6.93), mas foi eliminado nas quartas de final por Jordy Smith, que somou 13.90 contra 9.77 do brasileiro (notas 5.17 e 4.60). Jordy fez uma nota 8.67 logo nos primeiros minutos e ficou em ótima situação no outside, deixando Italo pressionado para surfar uma onda excelente em um momento com ventos ruins em Punta Roca.
Outras eliminações brasileiras nas oitavas
Yago Dora venceu Connor O’Leary nas oitavas com 13.17 (7.67 e 5.50), mas perdeu nas quartas para Matthew McGillivray por 12.60 a 11.00 (notas do brasileiro: 5.67 e 5.33).
Um dia antes do El Salvador Pro começar, Yago levou um corte no pé durante um free surf em Punta Roca e precisou levar 9 pontos. Mesmo assim, entrou no evento, venceu no Round 1, ganhou tempo pra cicatrizar ao avançar direto para o Round 3 — e chegou até as quartas de final, onde foi eliminado por Matthew McGillivray em uma bateria apertada.
Com o resultado até aqui, ele sobe uma posição no ranking e aparece neste momento em 3º lugar no mundo — lembrando que a etapa ainda não foi finalizada.
João Chianca foi superado por Ethan Ewing por 14.76 a 9.33 (notas de Chumbinho: 5.33 e 4.00).
Miguel Pupo derrotou Alan Cleland nas oitavas com 15.33 (8.50 e 6.83), mas foi eliminado nas quartas por Cole Houshmand, que somou 11.50 contra 5.97 do brasileiro. Com uma campanha sólida em 2025, Pupo ocupa o sexto lugar no momento e vai encostando nos Top 5 da WSL, atrás do italiano Leo Fioravanti por uma diferença de apenas 205 pontos.
Italo Ferreira passa pelas oitavas, mas cai diante de Jordy Smith. Foto: WSL / Emma Sharon
Gabriela Bryan x Bella Kenworthy
Gabriela Bryan protagonizou uma das melhores performances do evento até aqui ao conquistar a maior nota do campeonato, um 9.23, durante sua vitória nas quartas de final contra Bella Kenworthy. Com um somatório de 17.40 pontos, a havaiana superou os 15.67 da norte-americana, que também teve destaque ao marcar um 8.50 em sua melhor onda. A vitória colocou Gabriela nas semifinais, onde enfrentará a australiana Isabella Nichols. Ambas chegam em grande fase, prometendo uma das baterias mais técnicas e disputadas do Finals Day.
Yago Dora compete com 9 pontos no pé e faz bela campanha em Punta Roca. Foto: WSL / Emma Sharon
Semifinais definidas e expectativa para o Finals Day
Com os resultados desta sexta-feira, nenhum brasileiro segue na disputa pelo título em Punta Roca. O Finals Day está previsto para o sábado, com chamada oficial às 9h45 (horário de Brasília). A previsão de início das baterias é às 10h03. Caso os ventos terral estejam fortes no horário da chamada, a WSL pode aguardar para iniciar as disputas apenas após a maré baixa, prevista para às 11h30 (horário de Brasília).
A programação inclui as semifinais femininas (WSFs), semifinais masculinas (MSFs), final feminina e final masculina.
Miguel Pupo é o último brasileiro a cair em El Salvador. Foto: WSL / Aaron Hughes
Semifinalistas – Masculino:
Matthew McGillivray (AFS) x Crosby Colapinto (EUA)
No podcast Fala Papah, Jadson André revela episódios de racismo vividos em aeroportos e fala sobre preconceito, julgamento pela aparência e experiências marcantes na carreira. Foto: WSL / Thiago Diz
O surfista Jadson André, um dos nomes da geração que colocou o Brasil na elite do surf mundial, falou abertamente sobre episódios de racismo que já enfrentou ao longo da carreira. O relato foi feito durante participação no podcast Fala Papah e trouxe à tona situações vividas principalmente em aeroportos, durante viagens para competições internacionais.
Acostumado a viajar pelo mundo competindo no mais alto nível do surf profissional, Jadson contou que já foi questionado ao entrar em filas de prioridade em check-ins de companhias aéreas. Segundo ele, em diversas ocasiões ouviu que estaria “na fila errada”, julgamento feito com base apenas na aparência e na forma como estava vestido.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu no Aeroporto de Guarulhos. O surfista relatou que estava em uma fila para resolver um problema de bagagem quando foi ofendido por uma mulher que se recusou a aceitar a orientação que ele deu sobre a ausência de prioridade naquele atendimento. A situação escalou a ponto de Jadson procurar a Polícia Federal, que abordou a mulher e ofereceu a possibilidade de registrar ocorrência.
Além desse caso, o atleta mencionou outras situações constrangedoras vividas em aeroportos. Em uma delas, após ser tratado de maneira inadequada por um funcionário, acabou recebendo um upgrade de classe como tentativa de reparação. Jadson destacou que passou a se vestir de forma mais formal durante viagens justamente para evitar novos julgamentos precipitados.
Durante a conversa, o surfista também refletiu sobre os limites entre denúncia legítima e exageros nas redes sociais. Ele reconheceu que o racismo e a xenofobia são realidades presentes na sociedade, mas ponderou que é importante manter equilíbrio ao tratar do tema.
O episódio reforça um debate que vai além do esporte. A trajetória de Jadson André mostra que o preconceito pode atingir qualquer pessoa, independentemente da carreira ou do reconhecimento profissional.
O episódio completo está disponível no canal do podcast Fala Papah:
Christian Bezerra, COO da WPS, fala sobre classificação olímpica do surfe para 2028. Foto: Reprodução
As propostas que podem alterar os critérios de classificação do surfe para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 viraram um dos assuntos mais debatidos do esporte no cenário internacional. A notícia ganhou repercussão em diferentes mídias digitais após a AOS Mídia publicar o tema em primeira mão, trazendo ao público as informações iniciais sobre as mudanças discutidas nos bastidores.
O assunto agora entra em um novo capítulo com uma entrevista exclusiva no Fala Papah!, podcast apresentado por Ader Oliveira, gravada e publicada no canal do YouTube do projeto. O convidado é Christian Bezerra, COO da WPS (World Professional Surfers), entidade que representa os surfistas profissionais e atua como ponte institucional em pautas que envolvem os atletas do Championship Tour (CT).
Quem é a WPS e por que a opinião dela pesa
A WPS é uma organização que representa os interesses dos surfistas profissionais, especialmente os atletas que competem na elite mundial. Na entrevista, Christian comenta como essas propostas são percebidas do ponto de vista de quem está diretamente ligado ao dia a dia dos atletas e ao impacto que qualquer mudança pode gerar na preparação, no calendário e no caminho até a vaga olímpica.
O ponto central: calendário, meritocracia e previsibilidade
Durante a conversa, Christian destaca que o CT funciona como a principal plataforma competitiva do surfe profissional, com eventos ao longo do ano em diferentes condições e formatos. Para ele, qualquer alteração que aumente a dependência de eventos específicos pode criar cenários de maior imprevisibilidade e exigir ainda mais logística dentro de um calendário já muito intenso.
A discussão, portanto, não é apenas sobre números de vagas. Ela passa pela busca de um modelo que equilibre representatividade global, critérios esportivos, planejamento e justiça competitiva para quem está disputando a elite.
Debate internacional e interesse comum no melhor cenário
O processo olímpico envolve várias entidades e interesses diferentes. A ISA tem papel central por ser a federação internacional reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional. Já a WSL organiza o principal circuito profissional do esporte. No meio disso, a visão dos atletas e de seus representantes é uma peça importante para que o sistema final não gere distorções e preserve o nível técnico do surfe olímpico.
No Fala Papah, Pinga e Daniel Cortez analisam a formação da Brazilian Storm e projetam possível gap de até 10 anos no surfe brasileiro. Foto: Reprodução
O debate sobre um possível gap no surfe brasileiro ganhou força no Fala Papah após as análises de Luiz Henrique Pinga e Daniel Cortez sobre base, mercado e formação de atletas.
A fala surgiu dentro de um debate mais amplo sobre mercado, surfwear, investimento e formação de atletas. O tema repercutiu rapidamente entre profissionais do setor e também começou a circular fora do Brasil, levantando um ponto central: o surfe brasileiro não virou potência por acaso.
“Não foi à toa”: o que sustentou a Brazilian Storm
No recorte, os convidados lembram que a fase vitoriosa do Brasil foi consequência de um ecossistema mais sólido no passado: equipes estruturadas dentro das marcas, programas consistentes de base, viagens com atletas, ações estratégicas e um calendário nacional forte, que criava experiência competitiva.
Daniel Cortez cita, por exemplo, o período em que “a gente tinha 10 atletas” na equipe da Volcom, com um programa completo de desenvolvimento.
Já Pinga reforça um ponto essencial da formação:
“Tem que aprender a perder para começar a ganhar.”
Segundo ele, os circuitos nacionais e os formatos de transição ajudavam os jovens a entender o jogo do alto rendimento, preparando-os mentalmente e tecnicamente para o cenário mundial.
Por que eles acreditam que vem um “gap”
Na conversa, os participantes deixaram claro que não se trata de “caça às bruxas” nem de responsabilizar apenas um lado. Para eles, houve uma soma de fatores que foram alterando o ecossistema ao longo do tempo. No entanto, ele reconhece que o mercado de surfwear e o ambiente estrutural do esporte têm parcela importante nesse cenário.
Daniel Cortez complementa a análise com uma visão externa:
“Eu tô vendo o que tá rolando lá fora… os caras estão fazendo exatamente isso que a gente fez ali atrás e parou de fazer.”
A lógica apresentada no debate é direta: enquanto o Brasil reduziu parte da estrutura que sustentava a base, outros países passaram a investir justamente nesse modelo.
Austrália e Europa no radar
Cortez aponta a Austrália como exemplo de retomada estrutural. Já Pinga amplia o olhar e menciona o crescimento europeu, citando Espanha (especialmente as Canárias), além da evolução de Portugal e o surgimento de jovens talentos em diferentes centros do continente.
A leitura feita no episódio não é de que o surfe brasileiro perdeu relevância, mas de que o jogo internacional evoluiu — e que, sem investimento consistente na base, pode haver um intervalo significativo entre a geração atual e a próxima leva dominante.
Investir na base e pensar no longo prazo
No fim do trecho, eles reforçam que não existe um único culpado. Foram mudanças, decisões e adaptações ao longo do tempo que moldaram o cenário atual.
E também resumem o alerta: sem estrutura sólida e investimento contínuo, o país pode enfrentar um período de transição mais longo do que se imagina.
O debate não soa como pessimismo, mas como reflexão estratégica.