Michael Rodrigues faz o maior somatório dos brasileiros na estreia dos homens no Challenger Series em Ericeira. Foto: WSL / Poullenot
A previsão das ondas se confirmou e um swell de noroeste ganhou força nesta terça-feira em Ericeira, Portugal, palco da penúltima etapa do Challenger Series da World Surf League (WSL). Em ondas de 1 metro e séries maiores, com forte vento lateral, foram disputadas todas as baterias da primeira fase masculina e as 12 baterias iniciais do round 2 da categoria, com ótimas performances dos surfistas brasileiros na praia de Ribeira D’Ilhas.
Ao todo, seis brasileiros seguiram ao round 3, enquanto cinco foram eliminados. A maior pontuação entre eles foi de Michael Rodrigues, autor de 7.40 e 6.83 em suas duas melhores ondas. Com o total de 14.23 pontos, Michael comandou a dobradinha com o compatriota Ian Gouveia, segundo colocado com 11.33. Pior para Rafael Teixeira, eliminado em terceiro com 10.53, e o californiano Jett Schilling, que amargou o quarto lugar com 9.93.
Assim como Michael, os brasileiros Deivid Silva e Mateus Herdy avançaram em primeiro lugar nas suas respectivas baterias. “DVD” mostrou seu backside afiado para vencer a primeira bateria do round 2 com o total de 13.26 pontos. No mesmo confronto, o Top da elite mundial Miguel Pupo, que voltou a surfar recentemente depois de uma cirurgia no tornozelo, terminou em quarto com 10.27, atrás ainda do australiano Dylan Moffat e do neozelandês Te Kehukehu Butler.
Deivid Silva também vence em sua estreia nas ondas portuguesas. Foto: WSL / Poullenot
Já Mateus entrou em ação na última bateria do dia e garantiu a liderança com 12.27 pontos, deixando para trás o havaiano Imaikalani deVault, que está muito perto de retornar à elite mundial, o japonês Daiki Tanaka e o brasileiro Lucas Silveira, quarto com 9.27.
Ainda pela segunda fase, o Brasil teve as classificações de Leo Casal e Ryan Kainalo. Ambos já haviam competido logo cedo, no round 1, e voltaram pra água com força total. Em uma bateria apertada, Casal descolou a segunda posição com 11.13, contra 12.03 do líder Dimitri Poulos (EUA). O francês Joan Duru e o norte-americano Nolan Rapoza deram adeus à competição.
Com uma virada emocionante, arrancando 8.00 dos juízes em sua penúltima onda, Ryan Kainalo estragou a festa do californiano Crosby Colapinto – irmão do Top mundial Griffin Colapinto – e seguiu ao round 3 junto com o taitiano Kauli Vaast. O duelo contou ainda com o brasileiro Edgard Groggia, que terminou em quarto com 11.97 pontos, contra 12.83 de Ryan Kainalo, dono da segunda vaga, e 14.33 do líder Kauli Vaast.
Ryan Kainalo protagoniza virada espetacular na praia de Ribeira D’Ilhas. Foto: WSL / Poullenot
O round 2 teve ainda a eliminação de Jadson André, quarto colocado no confronto vencido pelo australiano Jackson Baker, com o japonês Tenshi Iwami ficando com a segunda posição e barrando também o peruano Miguel Tudela.
Melhor brasileiro no ranking do Challenger Series, Samuel Pupo ainda aguarda a sua estreia em Ericeira, bem como Alejo Muniz. Ambos estão escalados nos duelos pendentes da segunda fase.
A próxima chamada acontece 3:30h da madrugada desta quarta-feira, para possível início às 4:05h. A previsão aponta ondas um pouco menores e ventos com menor intensidade. A tendência é de as condições diminuírem ainda mais na quinta. Um balanço de oeste pode encostar na sexta-feira, ganhando ainda o reforço de outra pequena ondulação de noroeste no sábado. O domingo, último dia do período de espera, pode ter ondas maiores, mas apenas no decorrer da tarde, o que seria arriscado para os organizadores.
Leo Casal também avança duas fases em Ericeira. Foto: WSL / Masurel
Round 2 masculino
14 Samuel Pupo (Bra), Marco Mignot (Fra), Carlos Muñoz (CRI) e John Mark Tokong (Fil)
16 Matthew McGillivray (Afr), Alejo Muniz (Bra), Nat Young (EUA) e Jabe Swierkocki (EUA)
Round 3 masculino
1 Deivid Silva (Bra), Jackson Baker (Aus), Hiroto Ohhara (Jap) e Keanu Asing (Haw)
3 Reef Heazlewood (Aus), Frederico Morais (Por), Leo Casal (Bra) e Kian Martin (Sue)
5 Adin Masencamp (Afr), Michael Rodrigues (Bra), Ryan Kainalo (Bra) e Imaikalani deVault (Haw)
6 Jack Bunch (Haw), Ian Gouveia (Bra), Kauli Vaast (Fra) e Mateus Herdy (Bra)
Round 2 feminino
1 Sarah Baum (Afr), Luana Silva (Bra), Natasha Van Greunen (Afr) e Nadia Erostarbe (Bas)
3 Bronte Macaulay (Aus), Zahli Kelly (Aus), Tessa Thyssen (Fra) e Sophia Medina (Bra)
8 Sawyer Lindblad (EUA), Macy Callaghan (Aus), Zoe Benedetto (EUA) e Laura Raupp (Bra)
No podcast Fala Papah, Jadson André revela episódios de racismo vividos em aeroportos e fala sobre preconceito, julgamento pela aparência e experiências marcantes na carreira. Foto: WSL / Thiago Diz
O surfista Jadson André, um dos nomes da geração que colocou o Brasil na elite do surf mundial, falou abertamente sobre episódios de racismo que já enfrentou ao longo da carreira. O relato foi feito durante participação no podcast Fala Papah e trouxe à tona situações vividas principalmente em aeroportos, durante viagens para competições internacionais.
Acostumado a viajar pelo mundo competindo no mais alto nível do surf profissional, Jadson contou que já foi questionado ao entrar em filas de prioridade em check-ins de companhias aéreas. Segundo ele, em diversas ocasiões ouviu que estaria “na fila errada”, julgamento feito com base apenas na aparência e na forma como estava vestido.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu no Aeroporto de Guarulhos. O surfista relatou que estava em uma fila para resolver um problema de bagagem quando foi ofendido por uma mulher que se recusou a aceitar a orientação que ele deu sobre a ausência de prioridade naquele atendimento. A situação escalou a ponto de Jadson procurar a Polícia Federal, que abordou a mulher e ofereceu a possibilidade de registrar ocorrência.
Além desse caso, o atleta mencionou outras situações constrangedoras vividas em aeroportos. Em uma delas, após ser tratado de maneira inadequada por um funcionário, acabou recebendo um upgrade de classe como tentativa de reparação. Jadson destacou que passou a se vestir de forma mais formal durante viagens justamente para evitar novos julgamentos precipitados.
Durante a conversa, o surfista também refletiu sobre os limites entre denúncia legítima e exageros nas redes sociais. Ele reconheceu que o racismo e a xenofobia são realidades presentes na sociedade, mas ponderou que é importante manter equilíbrio ao tratar do tema.
O episódio reforça um debate que vai além do esporte. A trajetória de Jadson André mostra que o preconceito pode atingir qualquer pessoa, independentemente da carreira ou do reconhecimento profissional.
O episódio completo está disponível no canal do podcast Fala Papah:
Christian Bezerra, COO da WPS, fala sobre classificação olímpica do surfe para 2028. Foto: Reprodução
As propostas que podem alterar os critérios de classificação do surfe para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 viraram um dos assuntos mais debatidos do esporte no cenário internacional. A notícia ganhou repercussão em diferentes mídias digitais após a AOS Mídia publicar o tema em primeira mão, trazendo ao público as informações iniciais sobre as mudanças discutidas nos bastidores.
O assunto agora entra em um novo capítulo com uma entrevista exclusiva no Fala Papah!, podcast apresentado por Ader Oliveira, gravada e publicada no canal do YouTube do projeto. O convidado é Christian Bezerra, COO da WPS (World Professional Surfers), entidade que representa os surfistas profissionais e atua como ponte institucional em pautas que envolvem os atletas do Championship Tour (CT).
Quem é a WPS e por que a opinião dela pesa
A WPS é uma organização que representa os interesses dos surfistas profissionais, especialmente os atletas que competem na elite mundial. Na entrevista, Christian comenta como essas propostas são percebidas do ponto de vista de quem está diretamente ligado ao dia a dia dos atletas e ao impacto que qualquer mudança pode gerar na preparação, no calendário e no caminho até a vaga olímpica.
O ponto central: calendário, meritocracia e previsibilidade
Durante a conversa, Christian destaca que o CT funciona como a principal plataforma competitiva do surfe profissional, com eventos ao longo do ano em diferentes condições e formatos. Para ele, qualquer alteração que aumente a dependência de eventos específicos pode criar cenários de maior imprevisibilidade e exigir ainda mais logística dentro de um calendário já muito intenso.
A discussão, portanto, não é apenas sobre números de vagas. Ela passa pela busca de um modelo que equilibre representatividade global, critérios esportivos, planejamento e justiça competitiva para quem está disputando a elite.
Debate internacional e interesse comum no melhor cenário
O processo olímpico envolve várias entidades e interesses diferentes. A ISA tem papel central por ser a federação internacional reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional. Já a WSL organiza o principal circuito profissional do esporte. No meio disso, a visão dos atletas e de seus representantes é uma peça importante para que o sistema final não gere distorções e preserve o nível técnico do surfe olímpico.
No Fala Papah, Pinga e Daniel Cortez analisam a formação da Brazilian Storm e projetam possível gap de até 10 anos no surfe brasileiro. Foto: Reprodução
O debate sobre um possível gap no surfe brasileiro ganhou força no Fala Papah após as análises de Luiz Henrique Pinga e Daniel Cortez sobre base, mercado e formação de atletas.
A fala surgiu dentro de um debate mais amplo sobre mercado, surfwear, investimento e formação de atletas. O tema repercutiu rapidamente entre profissionais do setor e também começou a circular fora do Brasil, levantando um ponto central: o surfe brasileiro não virou potência por acaso.
“Não foi à toa”: o que sustentou a Brazilian Storm
No recorte, os convidados lembram que a fase vitoriosa do Brasil foi consequência de um ecossistema mais sólido no passado: equipes estruturadas dentro das marcas, programas consistentes de base, viagens com atletas, ações estratégicas e um calendário nacional forte, que criava experiência competitiva.
Daniel Cortez cita, por exemplo, o período em que “a gente tinha 10 atletas” na equipe da Volcom, com um programa completo de desenvolvimento.
Já Pinga reforça um ponto essencial da formação:
“Tem que aprender a perder para começar a ganhar.”
Segundo ele, os circuitos nacionais e os formatos de transição ajudavam os jovens a entender o jogo do alto rendimento, preparando-os mentalmente e tecnicamente para o cenário mundial.
Por que eles acreditam que vem um “gap”
Na conversa, os participantes deixaram claro que não se trata de “caça às bruxas” nem de responsabilizar apenas um lado. Para eles, houve uma soma de fatores que foram alterando o ecossistema ao longo do tempo. No entanto, ele reconhece que o mercado de surfwear e o ambiente estrutural do esporte têm parcela importante nesse cenário.
Daniel Cortez complementa a análise com uma visão externa:
“Eu tô vendo o que tá rolando lá fora… os caras estão fazendo exatamente isso que a gente fez ali atrás e parou de fazer.”
A lógica apresentada no debate é direta: enquanto o Brasil reduziu parte da estrutura que sustentava a base, outros países passaram a investir justamente nesse modelo.
Austrália e Europa no radar
Cortez aponta a Austrália como exemplo de retomada estrutural. Já Pinga amplia o olhar e menciona o crescimento europeu, citando Espanha (especialmente as Canárias), além da evolução de Portugal e o surgimento de jovens talentos em diferentes centros do continente.
A leitura feita no episódio não é de que o surfe brasileiro perdeu relevância, mas de que o jogo internacional evoluiu — e que, sem investimento consistente na base, pode haver um intervalo significativo entre a geração atual e a próxima leva dominante.
Investir na base e pensar no longo prazo
No fim do trecho, eles reforçam que não existe um único culpado. Foram mudanças, decisões e adaptações ao longo do tempo que moldaram o cenário atual.
E também resumem o alerta: sem estrutura sólida e investimento contínuo, o país pode enfrentar um período de transição mais longo do que se imagina.
O debate não soa como pessimismo, mas como reflexão estratégica.