José Francisco Fininho dribla obstáculos na carreira para se destacar nas competições de surfe. Foto: David Castro / Dream Tour
Nascido em João Pessoa (PB) e radicado em Santa Catarina, José Francisco, o ‘Fininho’, tem brilhado nas competições disputadas pelo Brasil e é um dos muitos talentos de surf do País sem um patrocínio no bico da sua prancha.
O atleta lidera o ranking catarinense profissional e é um dos candidatos ao título do Dream Tour, a divisão de elite do surfe brasileiro.
Além das batalhas na água, Fininho já enfrentou diversos obstáculos na vida. O paraibano fugiu de casa com apenas 7 anos para escapar da violência doméstica e por não suportar mais conviver com uma família marcada pelo alcoolismo.
Ainda levou consigo o seu irmão mais novo, pediu moedas e comida nas ruas de Cabedelo (PB), até o surf resgata-lo das ruas com apenas 9 anos de idade.
Fininho já disputou duas semifinais no Dream Tour este ano e está no páreo pelo título brasileiro. Foto: David Castro / Dream Tour
Com o apoio de pessoas como Valdir (dono de um bar em Cabedelo) e os biólogos Douglas e Rita Mascarenhas, que acomodaram o surfista em suas residências, Fininho conseguiu um futuro melhor e pôde seguir o sonho de se tornar surfista profissional.
Passou ainda pelo Rio de Janeiro, aos 18 anos, e reside em Santa Catarina desde 2015.
Mas, a luta ainda continua. No fim de agosto, Fininho abriu o jogo sobre a sua situação financeira e revelou que não se inscreveu para a quarta etapa do Dream Tour por não ter condição de viajar para Maceió (AL).
Além da bela campanha no Dream Tour, o atleta lidera o ranking estadual de Santa Catarina. Foto: David Castro / Dream Tour
Na mesma semana, Fininho terminou em terceiro lugar na etapa do Dream Tour na Praia Mole (SC). Uma semana depois, venceu a etapa do Circuito Catarinense em São Francisco do Sul.
Apesar das premiações, o prazo para inscrição para a etapa em Alagoas já havia encerrado e Fininho não pôde disputar o evento na última semana.
A ausência fez o paraibano cair de quarto para sexto lugar no ranking do Dream Tour, mas ele vai descartar a etapa e ainda tem boas chances de brigar pelo título, faltando ainda duas etapas para o término da temporada (Salvador e Rio de Janeiro).
Com um histórico de vida vencedor e um grande talento, está na hora de Fininho receber uma boa oportunidade?
No Fala Papah, Pinga e Daniel Cortez analisam a formação da Brazilian Storm e projetam possível gap de até 10 anos no surfe brasileiro. Foto: Reprodução
O debate sobre um possível gap no surfe brasileiro ganhou força no Fala Papah após as análises de Luiz Henrique Pinga e Daniel Cortez sobre base, mercado e formação de atletas.
A fala surgiu dentro de um debate mais amplo sobre mercado, surfwear, investimento e formação de atletas. O tema repercutiu rapidamente entre profissionais do setor e também começou a circular fora do Brasil, levantando um ponto central: o surfe brasileiro não virou potência por acaso.
“Não foi à toa”: o que sustentou a Brazilian Storm
No recorte, os convidados lembram que a fase vitoriosa do Brasil foi consequência de um ecossistema mais sólido no passado: equipes estruturadas dentro das marcas, programas consistentes de base, viagens com atletas, ações estratégicas e um calendário nacional forte, que criava experiência competitiva.
Daniel Cortez cita, por exemplo, o período em que “a gente tinha 10 atletas” na equipe da Volcom, com um programa completo de desenvolvimento.
Já Pinga reforça um ponto essencial da formação:
“Tem que aprender a perder para começar a ganhar.”
Segundo ele, os circuitos nacionais e os formatos de transição ajudavam os jovens a entender o jogo do alto rendimento, preparando-os mentalmente e tecnicamente para o cenário mundial.
Por que eles acreditam que vem um “gap”
Na conversa, os participantes deixaram claro que não se trata de “caça às bruxas” nem de responsabilizar apenas um lado. Para eles, houve uma soma de fatores que foram alterando o ecossistema ao longo do tempo. No entanto, ele reconhece que o mercado de surfwear e o ambiente estrutural do esporte têm parcela importante nesse cenário.
Daniel Cortez complementa a análise com uma visão externa:
“Eu tô vendo o que tá rolando lá fora… os caras estão fazendo exatamente isso que a gente fez ali atrás e parou de fazer.”
A lógica apresentada no debate é direta: enquanto o Brasil reduziu parte da estrutura que sustentava a base, outros países passaram a investir justamente nesse modelo.
Austrália e Europa no radar
Cortez aponta a Austrália como exemplo de retomada estrutural. Já Pinga amplia o olhar e menciona o crescimento europeu, citando Espanha (especialmente as Canárias), além da evolução de Portugal e o surgimento de jovens talentos em diferentes centros do continente.
A leitura feita no episódio não é de que o surfe brasileiro perdeu relevância, mas de que o jogo internacional evoluiu — e que, sem investimento consistente na base, pode haver um intervalo significativo entre a geração atual e a próxima leva dominante.
Investir na base e pensar no longo prazo
No fim do trecho, eles reforçam que não existe um único culpado. Foram mudanças, decisões e adaptações ao longo do tempo que moldaram o cenário atual.
E também resumem o alerta: sem estrutura sólida e investimento contínuo, o país pode enfrentar um período de transição mais longo do que se imagina.
O debate não soa como pessimismo, mas como reflexão estratégica.
Douglas Silva e Laura Raupp são os campeões brasileiros profissionais de 2025. Foto: Marcio David / Foco Radical
A temporada 2025 do Corona Cero Dream Tour Floripa chegou ao fim com a consagração de dois nomes que deixaram sua marca na história do surfe nacional. Douglas Silva e Laura Raupp encerraram o ano como campeões brasileiros da Confederação Brasileira de Surf, cada um com uma trajetória de destaque e resultados expressivos ao longo do circuito.
No masculino, Douglas Silva viveu um desfecho dramático. Eliminado antes da final, o pernambucano dependia de um tropeço de Renan Pulga para conquistar o bicampeonato consecutivo. Pulga avançou com força até a bateria decisiva, superando Michael Rodrigues nas quartas e Mateus Sena nas semifinais. Para se tornar campeão brasileiro, contudo, precisava vencer Adriano de Souza na final. O campeão mundial de 2015 brilhou novamente e impediu a virada de ranking. Com o vice na etapa, Pulga também terminou como vice-campeão brasileiro, enquanto Douglas vibrou ao confirmar seu segundo título seguido.
Com essa conquista, Douglas Silva se tornou apenas o terceiro atleta da história a atingir o bicampeonato consecutivo no surfe brasileiro, repetindo feitos de Peterson Rosa e Leonardo Neves. Ele descreveu o momento como a realização de um sonho, fruto de muita dedicação, treinos e confiança.
Renan Pulga (vice), Douglas Silva, Laura Raupp e Juliana dos Santos (vice) são premiados na Praia Mole. Foto: Marcio David / Foco Radical
No feminino, Laura Raupp dominou completamente a temporada. A catarinense venceu as etapas da Praia do Borete, Itamambuca e o primeiro Dream Tour Floripa, mantendo 100 por cento de aproveitamento nas baterias computadas no ranking. A derrota nas semifinais para Tainá Hinckel neste domingo foi sua única queda no ano, mas não afetou a classificação final. Laura já era campeã antecipada com uma das campanhas mais expressivas da história da CBSurf.
Tainá Hinckel, por sua vez, marcou presença decisiva na reta final. Ela havia vencido a etapa da Taça Brasil na Guarda do Embaú, chegou à final da penúltima etapa do Dream Tour e encerrou o ano com uma vitória imponente sobre Juliana dos Santos na Praia Mole. O resultado a colocou junto do recorde de Laura como surfistas com mais vitórias em uma única temporada de Dream Tour.
Os títulos de Douglas e Laura fecham um ciclo vitorioso e abrem caminho para a nova fase do surfe brasileiro. Em 2026, o Dream Tour dará lugar ao SURF BRASIL, com formato ampliado e mais oportunidades para atletas de todo o país.
Tainá Hinckel e Adriano de Souza vencem a quarta e última etapa do Circuito. Foto: Marcio David / Foco Radical
Resultados da quarta e última etapa do Dream Tour 2025
Masculino
1º Adriano de Souza (SP)
2º Renan Pulga (SP)
3º Mateus Sena (RN)
3º Wesley Leite (SP)
Feminino
1º Tainá Hinckel (SC)
2º Juliana dos Santos (CE)
3º Mariana Areno (RJ)
3º Laura Raupp (SC)
Adriano de Souza vence etapa do Dream Tour aos 38 anos. Foto: Marcio David / Foco Radical
Aos 38 anos, Adriano de Souza escreveu um capítulo marcante da história do surfe brasileiro. No domingo, 16 de novembro, o campeão mundial de 2015 conquistou sua primeira vitória no Corona Cero Dream Tour Floripa, ao dominar as ondas pequenas da Praia Mole e superar o paulista Renan Pulga na grande final. A vitória de Mineirinho encerrou com brilho a temporada 2025 da Confederação Brasileira de Surf.
Adriano entrou na etapa como convidado e havia passado longe das fases decisivas nas etapas anteriores. Mas na Praia Mole, tudo mudou. Ele venceu Alex Ribeiro nas quartas de final e superou Wesley Leite nas semifinais. Depois, anotou as maiores marcas do dia, incluindo uma nota 7,33 e o somatório de 13,33 pontos, para conquistar um título inédito no Dream Tour. Esta foi a premiação mais alta da carreira dele no cenário nacional, com 50 mil reais e 10 mil pontos no ranking da etapa.
Adriano e família. Foto: Marcio David / Foco Radical
A vitória de Mineirinho também teve papel decisivo na definição do título brasileiro. Renan Pulga precisava vencer o evento para superar o pernambucano Douglas Silva na corrida pelo campeonato. O paulista derrotou Michael Rodrigues nas quartas e Mateus Sena nas semifinais, mas parou diante da experiência de Adriano de Souza. Com o vice na etapa e no ranking, viu o título escapar na última bateria da temporada.
Douglas Silva, que acompanhava tudo da área dos atletas, comemorou intensamente ao ver Adriano levantar o troféu. Com o resultado, ele se tornou o primeiro bicampeão brasileiro consecutivo da CBSurf, igualando feitos históricos de Peterson Rosa e Leonardo Neves. O pernambucano celebrou o momento como a realização de um sonho após anos de dedicação e treinamento.
Finalistas da etapa na Praia Mole (SC). Foto: Marcio David / Foco Radical
No feminino, o domingo também foi de performances marcantes. Tainá Hinckel derrotou a já campeã brasileira Laura Raupp nas semifinais e venceu Juliana dos Santos na decisão, igualando o recorde de quatro vitórias no Dream Tour em uma única temporada.
A vitória de Adriano de Souza, combinada com a disputa intensa pelo título brasileiro, encerrou a temporada 2025 com emoção, história e uma celebração de legado na Praia Mole.
Resultados da quarta e última etapa do Dream Tour 2025
Masculino
1º Adriano de Souza (SP)
2º Renan Pulga (SP)
3º Mateus Sena (RN)
3º Wesley Leite (SP)
Feminino
1º Tainá Hinckel (SC)
2º Juliana dos Santos (CE)
3º Mariana Areno (RJ)
3º Laura Raupp (SC)