Barron Mamiya celebra o bicampeonato no Pipe Pro. O havaiano venceu pelo segundo ano consecutivo em Pipeline e se junta a lendas como Andy Irons e Rory Russell. Foto: WSL / Tony Heff
O Lexus Pipe Pro 2025 chegou ao fim com Barron Mamiya (HAW) e Tyler Wright (AUS) conquistando os títulos da primeira etapa do Championship Tour (CT) da WSL. Mamiya venceu uma final disputadíssima contra Leonardo Fioravanti (ITA), enquanto Wright superou Caitlin Simmers (EUA) para garantir sua segunda vitória em Pipeline.
A competição foi marcada por baterias eletrizantes, performances de alto nível e decisões polêmicas dos juízes, especialmente em duas baterias que dividiram opiniões nas redes sociais: o duelo entre Italo Ferreira e Miguel Pupo nas quartas de final e a grande final masculina entre Mamiya e Fioravanti.
Além disso, Barron Mamiya fez história ainda na sexta-feira, quando cravou um 10 perfeito em Pipeline em sua bateria contra John John Florence, reeditando a final do ano passado.
Leonardo Fioravanti ficou a apenas 0.01 ponto de conquistar o título. Foto: WSL / Brent Bielmann
Um dos grandes nomes no evento foi Ian Gouveia, que se destacou desde o Round 1, registrando os maiores somatórios entre os brasileiros em todas as fases que disputou. Sua campanha foi ainda mais impressionante porque ele competiu poucos dias após sofrer um corte profundo no joelho, que exigiu 22 pontos para sutura.
Mesmo enfrentando esse desafio físico, Ian mostrou um surfe sólido, eliminou grandes adversários e avançou até a semifinal.
Após superar uma lesão e eliminar Kelly Slater nas quartas, Ian Gouveia encerra sua participação nas semifinais, garantindo o 3º lugar no evento. Foto: WSL / Tony Heff
Quartas de final: Italo vira no fim, Ian brilha e Miguel cai no detalhe
Nas quartas de final, os brasileiros protagonizaram grandes confrontos:
Italo Ferreira x Miguel Pupo – Em um duelo 100% brasileiro, Miguel Pupo liderava a bateria com um7.17 na melhor onda e, nos minutos finais, ampliou a vantagem com um 7.93 no Backdoor. Mas Italo respondeu logo na onda seguinte e, após muita expectativa, os juízes lhe deram um 8.50, garantindo a virada e a vitória por 15.17 a 15.10. A decisão dos juízes gerou muitas discussões nas redes sociais, com opiniões divididas sobre se Italo realmente merecia um 8.50 ou se a virada deveria ter ficado com Miguel. O fato de ambos terem surfado ondas seguidas na mesma série contribuiu para o debate.
Ian Gouveia x Kelly Slater – Em um grande feito, Ian Gouveia eliminou o 11x campeão mundial Kelly Slater. Ian cravou um 8.00 no Backdoor e somou 15.17 pontos, contra 9.26 de Slater, que não conseguiu completar alguns dos tubos mais longos que tentou. Foi apenas a segunda vez na história que Slater foi eliminado nas quartas de final de Pipeline.
Italo Ferreira fez um evento sólido, incluindo uma virada emocionante sobre Miguel Pupo nas quartas, mas parou na semifinal contra Barron Mamiya. Foto: WSL / Brent Bielmann
Semifinais: Italo e Ian param na briga pela final
Na primeira semifinal, Italo Ferreira enfrentou Barron Mamiya e chegou a abrir a bateria com um 8.50 no Backdoor, mas viu o havaiano dominar a disputa com notas 9.57 e 9.33, deixando o brasileiro precisando de uma combinação para virar. Com isso, Italo encerrou sua campanha em terceiro lugar.
Na segunda semifinal, Ian Gouveia não conseguiu manter o ritmo das fases anteriores. O brasileiro enfrentou dificuldades para encontrar boas ondas e ainda precisou trocar de prancha durante a bateria, perdendo minutos valiosos. No fim, Leonardo Fioravanti levou a melhor por 16.57 a 9.34, deixando Ian também na terceira colocação.
Barron levou o título após um duelo eletrizante contra Leonardo Fioravanti, decidido nos critérios de desempate. Foto: WSL / Tony Heff
Barron Mamiya vence pelo segundo ano consecutivo em final polêmica
A final masculina entre Barron Mamiya e Leonardo Fioravanti foi uma das mais equilibradas dos últimos anos. O havaiano começou forte com um 8.17 em Pipeline e logo depois conseguiu um 9.80 no Backdoor. Fioravanti reagiu com um 8.83 e, nos minutos finais, pegou um tubo longo no Backdoor que poderia garantir o título.
O italiano precisava de um 9.11 para vencer e recebeu 9.10, ficando a apenas 0.01 da virada. Com os dois surfistas empatados em 17.97 pontos, Mamiya venceu pelo critério de maior nota individual, garantindo seu segundo título consecutivo no Pipe Pro.
A decisão gerou ainda mais polêmica do que a bateria entre Italo e Miguel, com muitos fãs e especialistas questionando se Fioravanti merecia uma nota maior na sua última onda, o que teria mudado o desfecho da final.
“Eu realmente não consigo acreditar que aconteceu de novo, estou muito grato”, disse Barron Mamiya. “Ganhar é incrível, mas vencer duas vezes seguidas, eu sinto que isso me coloca entre os melhores de todos os tempos aqui. Esse era o meu objetivo e eu consegui.”
Com a vitória, Mamiya se junta a lendas como Andy Irons e Rory Russell como os únicos havaianos a vencer dois Pipe Pro consecutivos.
Tyler Wright conquista sua segunda vitória em Pipeline e sai na frente no Mundial. Foto: WSL / Tony Heff
Tyler Wright conquista a vitória no feminino
No evento feminino, Tyler Wright conquistou sua segunda vitória em Pipeline, superando a atual campeã mundial Caitlin Simmers na final. Wright anotou um 7.70, enquanto Simmers não conseguiu encontrar boas ondas e somou apenas 3.94 pontos.
“Esta vitória é muito especial para mim”, disse Wright. “Nos últimos anos, tive muitas lesões e passei por dificuldades, mas voltei e trabalhei duro. Ter essa vitória aqui, depois de tudo isso, é incrível.”
A australiana agora assume a liderança do ranking mundial e competirá a próxima etapa com a lycra amarela de número 1 do mundo.
Próxima etapa: Surf Abu Dhabi Pro
O CT 2025 segue agora para um novo desafio: o Surf Abu Dhabi Pro, que será realizado em uma piscina de ondas nos Emirados Árabes. O evento acontece entre 14 e 16 de fevereiro, marcando a estreia do local no circuito mundial.
Caitlin Simmers termina o Pipe Pro 2025 como vice-campeã e mantém sua forte presença entre as melhores do mundo.. Foto: WSL / Brent Bielmann
Resultados finais do Lexus Pipe Pro 2025
Masculino
1º – Barron Mamiya (HAW) – 17.97
2º – Leonardo Fioravanti (ITA) – 17.97 (Mamiya venceu pelo critério de maior nota individual – 9.80)
3º – Italo Ferreira (BRA) (eliminado na semifinal por Mamiya – 18.90 x 10.33)
3º – Ian Gouveia (BRA) (eliminado na semifinal por Fioravanti – 16.57 x 9.34)
5º – Miguel Pupo (BRA) (eliminado nas quartas por Italo – 15.17 x 15.10)
5º – Jake Marshall (EUA) (eliminado nas quartas por Mamiya – 14.50 x 14.00)
5º – Kelly Slater (EUA) (eliminado nas quartas por Ian – 15.17 x 9.26)
5º – George Pittar (AUS) (eliminado nas quartas por Fioravanti – 15.67 x 8.00)
Feminino
1º – Tyler Wright (AUS) – 7.70
2º – Caitlin Simmers (EUA) – 3.94
3º – Lakey Peterson (EUA) (eliminada na semifinal por Wright – 15.17 x 9.83)
3º – Molly Picklum (AUS) (eliminada na semifinal por Simmers – 17.67 x 16.13)
5º – Caroline Marks (EUA) (eliminada nas quartas por Wright – 11.84 x 3.50)
5º – Isabella Nichols (AUS) (eliminada nas quartas por Peterson – 6.50 x 1.50)
5º – Sawyer Lindblad (EUA) (eliminada nas quartas por Simmers – 14.50 x 1.43)
5º – Brisa Hennessy (CRC) (eliminada nas quartas por Picklum – 8.10 x 1.03)
No podcast Fala Papah, Jadson André revela episódios de racismo vividos em aeroportos e fala sobre preconceito, julgamento pela aparência e experiências marcantes na carreira. Foto: WSL / Thiago Diz
O surfista Jadson André, um dos nomes da geração que colocou o Brasil na elite do surf mundial, falou abertamente sobre episódios de racismo que já enfrentou ao longo da carreira. O relato foi feito durante participação no podcast Fala Papah e trouxe à tona situações vividas principalmente em aeroportos, durante viagens para competições internacionais.
Acostumado a viajar pelo mundo competindo no mais alto nível do surf profissional, Jadson contou que já foi questionado ao entrar em filas de prioridade em check-ins de companhias aéreas. Segundo ele, em diversas ocasiões ouviu que estaria “na fila errada”, julgamento feito com base apenas na aparência e na forma como estava vestido.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu no Aeroporto de Guarulhos. O surfista relatou que estava em uma fila para resolver um problema de bagagem quando foi ofendido por uma mulher que se recusou a aceitar a orientação que ele deu sobre a ausência de prioridade naquele atendimento. A situação escalou a ponto de Jadson procurar a Polícia Federal, que abordou a mulher e ofereceu a possibilidade de registrar ocorrência.
Além desse caso, o atleta mencionou outras situações constrangedoras vividas em aeroportos. Em uma delas, após ser tratado de maneira inadequada por um funcionário, acabou recebendo um upgrade de classe como tentativa de reparação. Jadson destacou que passou a se vestir de forma mais formal durante viagens justamente para evitar novos julgamentos precipitados.
Durante a conversa, o surfista também refletiu sobre os limites entre denúncia legítima e exageros nas redes sociais. Ele reconheceu que o racismo e a xenofobia são realidades presentes na sociedade, mas ponderou que é importante manter equilíbrio ao tratar do tema.
O episódio reforça um debate que vai além do esporte. A trajetória de Jadson André mostra que o preconceito pode atingir qualquer pessoa, independentemente da carreira ou do reconhecimento profissional.
O episódio completo está disponível no canal do podcast Fala Papah:
Christian Bezerra, COO da WPS, fala sobre classificação olímpica do surfe para 2028. Foto: Reprodução
As propostas que podem alterar os critérios de classificação do surfe para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 viraram um dos assuntos mais debatidos do esporte no cenário internacional. A notícia ganhou repercussão em diferentes mídias digitais após a AOS Mídia publicar o tema em primeira mão, trazendo ao público as informações iniciais sobre as mudanças discutidas nos bastidores.
O assunto agora entra em um novo capítulo com uma entrevista exclusiva no Fala Papah!, podcast apresentado por Ader Oliveira, gravada e publicada no canal do YouTube do projeto. O convidado é Christian Bezerra, COO da WPS (World Professional Surfers), entidade que representa os surfistas profissionais e atua como ponte institucional em pautas que envolvem os atletas do Championship Tour (CT).
Quem é a WPS e por que a opinião dela pesa
A WPS é uma organização que representa os interesses dos surfistas profissionais, especialmente os atletas que competem na elite mundial. Na entrevista, Christian comenta como essas propostas são percebidas do ponto de vista de quem está diretamente ligado ao dia a dia dos atletas e ao impacto que qualquer mudança pode gerar na preparação, no calendário e no caminho até a vaga olímpica.
O ponto central: calendário, meritocracia e previsibilidade
Durante a conversa, Christian destaca que o CT funciona como a principal plataforma competitiva do surfe profissional, com eventos ao longo do ano em diferentes condições e formatos. Para ele, qualquer alteração que aumente a dependência de eventos específicos pode criar cenários de maior imprevisibilidade e exigir ainda mais logística dentro de um calendário já muito intenso.
A discussão, portanto, não é apenas sobre números de vagas. Ela passa pela busca de um modelo que equilibre representatividade global, critérios esportivos, planejamento e justiça competitiva para quem está disputando a elite.
Debate internacional e interesse comum no melhor cenário
O processo olímpico envolve várias entidades e interesses diferentes. A ISA tem papel central por ser a federação internacional reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional. Já a WSL organiza o principal circuito profissional do esporte. No meio disso, a visão dos atletas e de seus representantes é uma peça importante para que o sistema final não gere distorções e preserve o nível técnico do surfe olímpico.
No Fala Papah, Pinga e Daniel Cortez analisam a formação da Brazilian Storm e projetam possível gap de até 10 anos no surfe brasileiro. Foto: Reprodução
O debate sobre um possível gap no surfe brasileiro ganhou força no Fala Papah após as análises de Luiz Henrique Pinga e Daniel Cortez sobre base, mercado e formação de atletas.
A fala surgiu dentro de um debate mais amplo sobre mercado, surfwear, investimento e formação de atletas. O tema repercutiu rapidamente entre profissionais do setor e também começou a circular fora do Brasil, levantando um ponto central: o surfe brasileiro não virou potência por acaso.
“Não foi à toa”: o que sustentou a Brazilian Storm
No recorte, os convidados lembram que a fase vitoriosa do Brasil foi consequência de um ecossistema mais sólido no passado: equipes estruturadas dentro das marcas, programas consistentes de base, viagens com atletas, ações estratégicas e um calendário nacional forte, que criava experiência competitiva.
Daniel Cortez cita, por exemplo, o período em que “a gente tinha 10 atletas” na equipe da Volcom, com um programa completo de desenvolvimento.
Já Pinga reforça um ponto essencial da formação:
“Tem que aprender a perder para começar a ganhar.”
Segundo ele, os circuitos nacionais e os formatos de transição ajudavam os jovens a entender o jogo do alto rendimento, preparando-os mentalmente e tecnicamente para o cenário mundial.
Por que eles acreditam que vem um “gap”
Na conversa, os participantes deixaram claro que não se trata de “caça às bruxas” nem de responsabilizar apenas um lado. Para eles, houve uma soma de fatores que foram alterando o ecossistema ao longo do tempo. No entanto, ele reconhece que o mercado de surfwear e o ambiente estrutural do esporte têm parcela importante nesse cenário.
Daniel Cortez complementa a análise com uma visão externa:
“Eu tô vendo o que tá rolando lá fora… os caras estão fazendo exatamente isso que a gente fez ali atrás e parou de fazer.”
A lógica apresentada no debate é direta: enquanto o Brasil reduziu parte da estrutura que sustentava a base, outros países passaram a investir justamente nesse modelo.
Austrália e Europa no radar
Cortez aponta a Austrália como exemplo de retomada estrutural. Já Pinga amplia o olhar e menciona o crescimento europeu, citando Espanha (especialmente as Canárias), além da evolução de Portugal e o surgimento de jovens talentos em diferentes centros do continente.
A leitura feita no episódio não é de que o surfe brasileiro perdeu relevância, mas de que o jogo internacional evoluiu — e que, sem investimento consistente na base, pode haver um intervalo significativo entre a geração atual e a próxima leva dominante.
Investir na base e pensar no longo prazo
No fim do trecho, eles reforçam que não existe um único culpado. Foram mudanças, decisões e adaptações ao longo do tempo que moldaram o cenário atual.
E também resumem o alerta: sem estrutura sólida e investimento contínuo, o país pode enfrentar um período de transição mais longo do que se imagina.
O debate não soa como pessimismo, mas como reflexão estratégica.